Startup transmite energia de um avião em movimento com laser infravermelho e reacende a corrida pela energia solar espacial
Um teste a mais de 5 km de distância mostrou, pela primeira vez, um sistema completo de “power beaming” óptico operando a partir de uma aeronave em movimento. A proposta: um dia, satélites em órbita geoestacionária poderão captar luz do Sol e devolver eletricidade à Terra, direcionando feixes para receptores instalados em fazendas solares existentes.
O que aconteceu no teste e por que ele chama atenção
A Overview Energy realizou um experimento em que uma aeronave voou a cerca de 5.000 metros de altitude enquanto transmitia energia por meio de um feixe de laser infravermelho. No solo, painéis fotovoltaicos converteram essa luz em eletricidade. O ponto central não foi a quantidade de energia gerada no teste, mas o fato de a demonstração ter reunido, ao mesmo tempo, emissão do feixe, apontamento, rastreamento e recepção em condições reais de movimento, distância e turbulência.
Segundo os relatos públicos do experimento, o sistema foi instalado em um avião (em testes descritos como uma campanha de voos) e operou com um receptor montado a partir de painéis solares convencionais, similares aos usados em instalações residenciais e de grande escala. O objetivo é validar, fora do laboratório, os componentes que a empresa afirma pretender levar ao espaço.

Como funciona a transmissão de energia por laser para painéis solares
A ideia é simples de explicar e difícil de executar: transformar eletricidade em luz (laser), enviar essa luz por um caminho livre (ar ou espaço) e convertê-la de volta em eletricidade em um receptor fotovoltaico. Para isso funcionar de forma útil, três desafios se impõem:
- Apontamento e estabilidade: manter o feixe alinhado a um alvo relativamente pequeno, mesmo com vibrações, rajadas de vento e movimento do emissor.
- Eficiência ponta a ponta: cada etapa do processo tem perdas (eletricidade → laser → propagação → conversão fotovoltaica → condicionamento elétrico).
- Segurança operacional: garantir que o feixe opere com densidade de potência e controles adequados para não criar risco a pessoas, aeronaves e fauna, além de atender a regras e classificações de segurança para produtos a laser.
Um detalhe técnico relevante é a discussão sobre densidade de potência do feixe. Feixes mais “brandos” tendem a ser mais seguros, mas exigem receptores maiores para entregar energia útil. Já feixes mais concentrados melhoram a entrega de energia, mas elevam a complexidade de proteção, intertravamentos, detecção de objetos no caminho e requisitos regulatórios.
Por que a empresa aposta em laser, e não em micro-ondas
Projetos de energia solar espacial frequentemente citam micro-ondas como alternativa para transmissão sem fio. A Overview e pesquisadores que acompanham o tema ressaltam, porém, que o espectro de radiofrequência é disputado por várias aplicações comerciais e industriais, o que adiciona desafios de compatibilidade e alocação. Ao usar um feixe óptico (infravermelho), o sistema opera em outra faixa do espectro e muda o tipo de engenharia necessária: menos foco em antenas gigantes e mais foco em óptica, apontamento fino e receptores fotovoltaicos.
Na prática, cada abordagem tem um “pacote” de dificuldades. O laser exige linha de visada e sofre com nuvens densas e condições atmosféricas adversas; micro-ondas exigem grandes estruturas para formar feixes controláveis e levantam discussões específicas sobre interferência e exposição. A escolha final tende a depender de custo, escala, eficiência e do caminho regulatório.
O plano até 2030 e o que ainda precisa dar certo
A ambição declarada é chegar a satélites capazes de coletar energia solar e enviá-la de volta ao planeta, com foco em órbita geossíncrona/geoestacionária para maximizar disponibilidade de luz ao longo do dia. A empresa também menciona marcos intermediários antes da operação comercial, como demonstrações em órbita mais baixa. Em tese, isso permitiria “estender” a utilidade de parques solares no solo, entregando energia quando o Sol não está disponível localmente.
Mesmo com um teste aéreo bem-sucedido, os principais gargalos continuam sendo de escala:
- Escalonar potência: sair de demonstrações para níveis que façam diferença na rede elétrica.
- Operar com alta confiabilidade: manter alinhamento, redundâncias e controle térmico por longos períodos.
- Vencer o clima: lidar com cobertura de nuvens e escolher locais e arquiteturas de recepção adequados.
- Licenças e padrões: cumprir requisitos de segurança a laser e regras de operação envolvendo espaço e aviação.
Se a promessa se confirmar, a energia solar espacial pode deixar de ser apenas um conceito futurista e se tornar um complemento real para a matriz renovável. Por enquanto, a demonstração do feixe a partir de um avião em movimento é um sinal importante de maturidade técnica, mas ainda é o começo de uma longa jornada rumo à escala industrial.
Fontes
- IEEE Spectrum — Researchers Beam Power From a Moving Airplane
- Overview Energy — Our Airborne Demo Makes Space Solar Energy a Reality
- Yahoo Finance — Overview Energy exits stealth with world’s first airborne power beaming demo
- AeroTime — Power beamed from a moving aircraft for first time
- Renewable & Sustainable Energy Reviews — High-power optical photovoltaic transmission (2025)
- IEC 60825-1 (documento de referência sobre segurança de produtos a laser)


